24.12.04

004.018

Estava triste, mas não infeliz. Tinha conseguido alguém que o amava reciprocamente, mas estavam separados por quilômetros. Falavam pela internet. Ia vivendo assim, esperando até que pudessem se reencontrar. Já houvera outra viagem para conhecer outra pessoa, mas foi "sem sucesso". Houve também antes do atual namoro, um relacionamento desastroso, apressado e solitário. Coisas que ele às vezes esquecia. Ainda estudava, e às vezes tinha aulas tão tediosas que dormia. Foi numa dessas que aconteceu...

* * *

Acordou com seu amigo glam lhe sacudindo. Ainda estava na escola, sentado no mesmo canto dos últimos dois anos. A aula havia acabado e ele havia dormido demais, para variar.
- Acorda aí! Acabou a aula!
- Hum-hum... que horas são?
- Não tenho relógio, você que tem!
- Ah... vou ter que pegar meu celular...
Com isso, reparou que estava com seu relógio azul, citizen, no pulso. o relógio que havia sido roubado há 3 meses, junto com sua câmera digital ganhada em seu aniversário, há 6 meses.
- Meu relógio! Como?
- Seu relógio come?
- "Come" o quê???
- O relógio?
- Come?
- É! Come, come... eu acho que você ainda não acordou...
- Mas... meu relógio foi roubado! Lembra? Junto com a minha câmera!
- Que câmera???
- A minha digital!
- Nem sabia que você tinha uma...
- Como assim? Eu trouxe ela pra escola!
- EU não vi.
- E o meu relógio?
- Que que tem?
- por que ele tá aqui?
- Cara... você dormiu demais... eu vou embora...
Ficou perdido. Seu relógico estava ali mesmo. Fechou o caderno e foi embora também. No caminho do ponto de ônibus, encontrou uma garota que conhecera há 6 meses no curso pré-vestibular que fazia. Ela segurava um pacote de bolachas de morango. Ele acenou para ela conforme se cruzaram. Ela escondeu o pacote e olhou para ele com uma cara desconfiada e seguiu seu rumo. Ele não entendeu novamente. Foi até o ponto de ônibus e chegou em casa normalmente. Não havia ninguém. Foi para seu quarto e dormiu. Sua mãe foi o chamar para o jantar, mas ele apenas recusou. Acordou com sua mãe o sacudindo.
- Vai, vai! Você tá atrasado!
- Tô indo...
Se levantou, se vestiu, procurou a apostila do curso, desistiu, pois estava atrasado, mas encontrou, no meio da bgaunça, uma carta ainda fechada, do Rio de Janeiro, de sua "ex-alguma-coisa-que-nem-ele-sabia". Foi para visitá-la que ele havia ido para lá, há 9 meses. Pegou a carta e saiu. Correu atrás do ônibus e entrou. Sentou-se do lado esquerdo, nas cadeiras únicas, pegou a carta e começou a ler.
"Meu querido!
Que bom que vens me visitar!..."
Parou de ler. "Como assim, visitar?" pensou. Já havia ido, e já havia "terminado" "tudo" (que "tudo", ninguém nunca soube). Olhou a carta, datada de 31/03/2004. Achou estranho, pois estava em Dezembro do mesmo ano! Não sabia o dia pois sempre se perdia nas datas, mas, fazia tempo aquele dia "31". Pensou. Figuras voavam pela janela do ônibus. Relógio, carta, câmera... datas... a menina da bolacha...
- O que aconteceu comigo? - falou em voz baixa no ônibus. Pediu para parar no ponto da escola onde haviam muitos rostos conhecidos. Seu amigo glam não estaria lá, havia conseguido um estágio há dois meses, mas poderia haver alguém qualquer. Chegou e foi para o laboratório de informática. Para sua surpresa, seu amigo glam estava lá.
- Você não devia tá trabalhando? - falou
- Heim?
- Trabalhando! Que dia é hoje?
- É sexta.
- Então!
- Então o que?
- As pessoas trabalham de sexta!
- É, o que VOCÊ tá fazendo aqui?
- Eu o que?
- Pediu demissão?
- Do que?
- Tá louco você... o que você tá fazendo aqui?
- Eu tô confuso... matei aula do cursinho pra falar com alguém conhecido...
- Que cursinho?
- Cursinho do Sindicato.
- Tá, tá... você que tá me confundindo...
Ficou pensando "Relógio, câmera, carta, trabalho..."
- TEMPO!
- O quê?
- O TEMPO MUDOU!
- Não sei... isso é papo de quem tá sem assunto igual no filme da Amélie. "se fala do tempo que se faz por medo do tempo que se passa".
- Mas é isso mesmo! O tempo NÃO passou! Ou voltou, sei lá!
- Você nunca bebeu antes... mas hoje, enfiou o pé na jaca, heim?
- O tempo... que dia é hoje?
- Sexta, mas você já perguntou isso...
- Do mês!
- Dia dois.
- De que mês?
- Mês... Março... não, Março foi mês passado...
- O tempo!
Com isso, ele saiu correndo até o banheiro. Se trancou num cubículo e ficou em silêncio até que seu relógio que havia sido roubado (mas estava ali) apitou uma hora cheia.