Fazia tempo que estava daquele jeito. Passando madrugadas à meia-luz, cheias de ideias sobre Lítio e vontade de experimentar a felicidade instantânea do Prozac que um dia lhe contaram. Trabalhava meio período e dormia quatro horas por dia, sendo duas de tarde e duas antes do trabalho (entre as 7 e as 9 da manhã).
Juntava dinheiro para quando achasse alguém. Procurava silenciosamente enquanto escrevia textos mentalmente. As pessoas passavam e ele procurava. Alguém interessante passava e ele imaginava como poderia ser se alguém do outro lado tornasse o contato possível. Usava broches e camisetas das bandas que ouvia, quase sempre desconhecidas, com a intenção única e exclusiva de chamar quem ele procurava, mas os broches nunca diziam nada, principalmente porque ele cruzava os braços sobre eles. Um dia saiu com os braços abertos. Não sentiu diferença alguma. A noite desse mesmo dia ainda corria quando ele recebeu em sua mente a ideia de fechar-se novamente. Veio-lhe a ideia de parar de procurar. Surgiu em sua cabeça uma vontade utópica de suicídio. O sentido de tudo passou raspando por sua mão, mas ele não pegou. Procurava outra coisa. Procurava um milagre, um remédio, uma arma qualquer ou o mais inesperado: uma mão amiga. Por fim, tateou um cortador de unha e produziu uma unha encravada. Tinha o hobby de cultivar unhas encravadas. Limpava-as, tirava pus e sangue delas. Tratava delas com carinho e ódio. Por vezes, enfiava uma agulha quando estava quase cicatrizando.
Ele, com suas unhas, vivia num mundo externo. E a solidão nesse mundo era sufocante, tão sufocante quanto a necessidade de alguém.