- Olha a luz refletida no chão, olha.
Nada ouviu.
- A parte que me cabe está com você?
Algo ouviu.
- Não, não está comigo.
E tudo se calou.
No dia seguinte, foi na farmácia.
- Dois Prozac por favor.
- Tem receita?
- Não.
- Então é R$ 20 mais caro cada caixa.
- Ok.
Deu uma nota de R$ 50 e mais duas de R$ 20.
- Pode ficar com o troco.
- Valeu!
Foi embora lendo a bula.
- ...contraindicações... efeito... superdosagem... hm...
Abriu as duas caixas em casa e despejou tudo na mesa. Pegou uma garrafa de vinho tinto. Encheu uma taça e começou. Tomou um... dez... as duas caixas. Sentiu-se mal. Sorriu para o céu que estava sob o teto. Caiu no chão. Errou. Flutuou. Sua cabeça sangrava. No mundo real, caiu em cima da taça. O sangue voava. Ele voava. Sonhou que era feliz, voando com as mariposas em volta das lâmpadas.
- Olha a luz refletida no chão.
As mariposas voavam em rasante para o chão e ele foi, sendo guiado pelo líder. Bateram todas contra o corpo dele, e ele sentiu, ao mesmo tempo, batendo e sendo batido. Como mariposa e como corpo inerte.
- Olha a luz refletida...
Acordou. Havia vômito no chão, ao lado dele. Havia sangue em seu cabelo. Foi se arrastando pelo chão.
- ... Olha... luz no sangue...
Ligou a água e deitou onde estava. A água passava e seus cabelos dançavam. Era fim de festa. Os fios se soltavam uns dos outros conforme o sangue semi coagulado os permitia. Casais se separavam, pactos de sangue eram quebrados.
Sentiu a alma subindo pela faringe e vomitou pela laringe. Gargarejou com a água e, sentado, acendeu um cigarro para repor a alma. A fumaça do cigarro e o sangue se igualaram, sangue e água no chão e fumaça e vapor no ar.
Sentiu-se limpo e livrou-se das roupas molhadas. Deitou na cama nu após cortar o pé nos cacos da taça.
- Olha...
Dormiu.
Chegando ao trabalho, acordou. Tinha dormido demais. Talvez por culpa dos remédios, ou talvez porque tivera um sonho bom ou um pesadelo realista. Tinha agora, além das olheiras terríveis, um curativo mal feito nas costas. Seus pés doíam e ele mancava graças às unhas encravadas. Mas já estavam todos acostumados com seu andar torto e suas olheiras. Às vezes, atacavam uns tiques nervosos em seu olho esquerdo. Eles se fechavam e se abriam rapidamente. Às vezes ficavam como um buraco de botão, sem estar aberto nem fechado.
- Você tá bem? - Era uma pessoa que perguntava isso todo dia.
- Tô vivo. - Estar vivo para ele era um suplício, mas servia para que as pessoas achassem que estava bem mesmo sem precisar mentir.